
OU VOCÊ USA A IA DE FORMA AUTORAL, OU VOCÊ DEIXA ELA PENSAR POR VOCÊ.
O Werner Herzog, aos 84 anos, disse uma coisa que muita gente não teve coragem de dizer. Perguntaram a ele sobre o “About a Hero”, um filme que usou inteligência artificial para imitar o estilo dele. Um roteiro treinado nos filmes dele. Um deepfake dele como narrador. A resposta veio sem anestesia.
“É uma ideia tão estúpida. É fenomenalmente, abismalmente estúpido. Não vou participar disso.”
E depois ele emendou uma frase que deveria estar colada na parede de todo mundo que trabalha com criação hoje:
“É tão padronizado que a IA pode entrar, porque não há narrativa real. É a mímica de algo que aconteceu antes.”
O Herzog foi além. Disse que se a IA serve para alguma coisa, é para substituir os hacks sem talento. Aqueles que não fazem nada além de repetir, repetir, repetir.
Eu tenho 35 anos de profissão. E quando li isso, lembrei da minha primeira tentativa de usar IA.
Foi estranho desde o começo. Eu pedia uma coisa, e a máquina me entregava com um estilo completamente diferente do meu. Não fazia sentido nenhum. Por que eu ia querer usar uma ferramenta que faz ilustração que não é a minha, imitando o estilo dos outros? Eu não sou os outros. Eu sou eu — depois de 35 anos desenhando, é isso que eu tenho.
Foi aí que eu entendi o caminho. Não era usar a IA para desenhar por mim. Era usar a IA para trabalhar segundo o meu estilo, não o estilo dela.
E esse é o caminho mais difícil. É o caminho que dá trabalho, que exige que você alimente a máquina com o que é seu, que construa camadas e mais camadas até ela entender quem você é. É o caminho que muita gente não compreende. As pessoas querem o atalho. Querem o resultado bonito em dois cliques.
Mas eu vejo o que o Herzog viu. A IA que “concebe” sozinha produz um resultado deletério. E não é porque é perfeito demais — não é. É que as imagens, quando vistas uma a uma, podem até ser impressionantes: um take, uma foto, uma cena isolada. Mas o impacto vem da novidade, não da qualidade. E quando tudo isso é reunido numa história, a coisa desanda. Sempre desanda. Falta a emoção da interpretação, falta a concatenação certa do roteiro, falta a continuidade — ou a atuação — ou a IA simplesmente esbarra naquele vale da estranheza que a gente conhece bem. Cada peça pode ser bonita. O conjunto nunca conta a história direito.
A curto prazo, impressiona. A longo prazo, não tem função.
Ou você usa a IA de forma autoral — como uma extensão do que você já é — ou você deixa a IA conceber as coisas por você. E se você deixar, o que sobra é a mímica. E mímica, como o Herzog já avisou, todo mundo cansa de ver.
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