
O GOVERNO AMERICANO ESCOLHEU UM LADO. E NÃO É O LADO DE QUEM CRIA.
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Para quem ainda acredita na lei, na ordem e na justiça — no modelo de convivência que a gente construiu — aí está um exemplo perfeito de como as retóricas são manipuladas para favorecer sempre quem detém o capital e o poder.
O governo dos Estados Unidos entrou no caso da OpenAI contra o New York Times. Dois gigantes brigando. Mas com interesses gigantescos ao lado da OpenAI — e o governo declarou algo que afronta não só o New York Times, mas toda a humanidade que constrói, que pensa, que cria.
A tese é essa: se algo foi usado para treinar uma inteligência artificial, isso passa a ser um elemento transformado. Uma obra nova, derivada. E o raciocínio segue: uma obra transformada poderia gerar um novo direito autoral — agora, em favor de quem detém a máquina.
E tem mais. Por trás do argumento jurídico, existe uma visão de dominação. O “interesse da nação”. A segurança nacional. Ou seja: os Estados Unidos precisam dominar essa tecnologia para continuar dominando o mundo. E para isso, o trabalho de toda a humanidade vira matéria-prima gratuita.
Repara no que isso significa.
O escritor passa anos escrevendo. O músico, compondo. O ilustrador, desenvolvendo um traço. E uma empresa pega tudo isso — sem pedir, sem pagar — para construir uma máquina que vai competir com cada um deles. E o governo mais poderoso do mundo diz: pode. É justo.
Agora, se a gente aceitar essa lógica da obra transformada, que ela seja levada até o fim. Se o conhecimento de toda a humanidade virou insumo — então o resultado pertence à humanidade inteira. Todas as pessoas do mundo deveriam ter o direito de usar isso de forma gratuita. Sem que quem detém os modelos lucre um centavo com o que nunca foi deles.
No máximo, isso deveria ser algo oferecido pelas nações. Um bem comum. Porque o que está sendo usado é o conhecimento construído pelo mundo todo — ao longo de séculos. E alguém vai lucrar com isso? Empresas privadas vão faturar bilhões, pagar impostos para poucos países, e explorar o que foi desenvolvido pela humanidade inteira?
Isso é simplesmente um absurdo.
E o mais irritante de tudo: existe um caminho ético — e ninguém fala dele. É perfeitamente possível usar a IA, mesmo com os modelos construídos dessa forma, de um jeito respeitoso. Onde o produto final seja autoral de verdade. Contemplando e preservando o direito de cada pessoa que teve o material usado no treinamento. As LoRAs estão aí. O ControlNet está aí. O IP Adapter está aí. Ferramentas que permitem ao artista partir da máquina e produzir algo que é dele — sem apagar o direito de quem veio antes.
Mas ninguém fala sobre isso. Nem quem combate a IA, nem quem a defende. A briga é irracional dos dois lados: ou o roubo geral, ou a proibição da tecnologia. Ninguém discute o uso respeitoso.
A gente ainda precisa evoluir muito essa conversa para encontrar os caminhos certos de usar uma tecnologia extraordinária. Hoje, ela segue num caminho que prejudica a humanidade em todos os sentidos. E o mais triste: no senso comum, ninguém parece perceber.